Pessoas tentando pesso@s

Quantas vezes ficamos por longos períodos de tempo num blogue, vendo e relendo os textos como se fosse um aquário animado por peixes, scroll down e scroll up, tentando perscrutar a pessoa, tentando imaginar a pessoa como um todo, e em partes, tentando, sem planos, foder com a pessoa?

Até filmes há, já, sobre a crescente robotização dos nossos sentidos.

Eu assumo que fico por longos períodos de tempo num blogue, vendo e relendo os textos como se fosse um aquário animado por peixes, scroll down e scroll up, tentando perscrutar a pessoa, tentando imaginar a pessoa como um todo, e em partes, tentando, sem planos, foder com a pessoa.

Contraplatónica Salomé

Desejei? Desejei esta mesa levantada e fria. Desejei conhecer. Quis os corpos, cada qual na sua temperatura diurna, e a liquefacção dos meus desejos. Quis conhecer-te até o delírio povoar um inteiro arquipélago de ambição. Eras tu? Era eu? Quem era o terreno sacudido pela paixão e vaidade? Tu? Eu? Desejei, e só, nulo transdutor, quis que fosses minha como aquelas pontes de areia que se desfazem no tempo. Quis pagar esse pequeno preço sobre a alegria do nada. De uma palavra. De amanhecer contigo. Pura. Quis e desejei sobre todas as palavras surreais que não mais acordássemos.

Santa humildade

Associo a humildade a um traço de nobreza de carácter. Jamais será um sacrifício, porque as perspectivas se esgotaram, ou um estado-condição, quase inato. Humildade não é desconhecer e bendizer esse desconhecimento, ainda que seja como possibilidade de aprender. É bom senso. Humildade é saber e não ter a necessidade de mostrar. O que nos transcende, transcende, e não precisa de pregões a anunciar sua super-virtude que impõe o mais alto dos temores. Humildade é saber e ter outra perspectiva melhor, mas, em nome de valores mais altos – que o humilde considera mais alto – como a amizade, ou o amor, por exemplo, sacrifica essa perspectiva. Porque sabe. No fundo, humildade é uma inclinação mártir julgada num princípio de prazer puro e conhecimento pessoal.

O que está na minha cadeira de leitura

O que ando a ler, com maior ênfase nestes três: A Casa das Belas Adormecidas, de Yasunari Kawabata; Paper Girls I, de Brian K. Vaughan e Cliff Chiang; Um Cavalo em Fuga, de Martin Walser. Na cadeira, ainda, estão presentes desde clássicos como Anna Karenina e O Deus das Pequenas Coisas, até edições de livros publicados este ano, como é o caso de Lanzarote de Michel Houellebecq. Ontem à noite andei a cirandar as prateleiras, repletas que estão de livros não lidos, nem sequer abertos – é incomensuravelmente maior o número de livros não lidos que tenho na minha biblioteca, acho isto importantíssimo – e cheirei o Jane Eyre, esse, o colossal romance da irmã Bronte mais velha. Mas ficará para outra altura.

Quanto ao que ando a ler com mais regularidade, aqueles três ali de cima, são escolhas óbvias dentro do meu espectro gustativo – Kawabata pela magia, Paper Girls pelo arrojo, Walser pela nostalgia.

Hoje à tarde vou ao Porto, ver um filme, e levo comigo o Walser.

Talvez um glissando num sax me apaixone

A minha pose na vida é a de constante espera – por vezes, creio, uma espera insossa, poética, aquela que tudo quer tornar perfeito, que pensa demais, que sonha demais e vai morrer utópico; não me comprometo com nada nem ninguém, mas nada disto é desprendimento ou hipocrisia – tenho um pragmatismo que à superfície nada mais é do que moderação activa com risco zero. Mas quem me olha, tem dúvidas de que realmente eu esteja ali. Ao mesmo tempo, sou imutável e desassossegado – o eterno aspecto de quem serve a dois mestres. Desdenho fortemente e até à desconfiança de quem diz que vive intensamente, atrevidamente, como se tudo fosse acabar amanhã. Parabéns por ter uma vida tão entusiasmante como uma esfregona humedecida. Assustam-me os pretensos heróis, de pau e fita. O único lugar onde heróis são fotogénicos é em páginas de livros, a lutar contra moínhos. Eu gosto de ouvir o ralenti, escolher onde acelerar a fundo, sem nunca perder o controlo. Uma montanha, um caos calmo, sopé largo e seguro, assim sou.